Centralidade na periferia: Campo Grande na periferia da RMRJ

By 03/11/2014 janeiro 24th, 2018 Teses e Dissertações
Bairro de Campo Grande, Rio de Janeiro

Bairro de Campo Grande, Rio de Janeiro                                Crédito: Reprodução/Web

Neste trabalho a pesquisadora Raquel Luccena mostra que a região de Campo Grande exerce uma centralidade na periferia da Região Metropolitana do Rio de Janeiro e uma subcentralidade na escala metropolitana, a partir dos dados do Índice de Bem-Estar Urbano.

A dissertação “Centralidade na periferia: a centralidade de Campo Grande na periferia da metrópole carioca”, da pesquisadora Raquel Luccena, é mais um resultado da Rede de Pesquisa Observatório das Metrópoles. O trabalho foi defendido em 09 de junho de 2014 no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Urbana, da Escola Politécnica da UFRJ, com a orientação de profº. Fernando Rodrigues Lima.

O trabalho analisa a trajetória das mudanças que formam e consolidam a centralidade do bairro de Campo Grande na periferia da metrópole carioca. Para tanto, Luccena apresenta elementos que, ao longo dos anos, vem reforçando essa centralidade na região – e utiliza dados do Índice de Bem-Estar Urbano Local – IBEU Local da Região Metropolitana do Rio de Janeiro para demonstrar essa hipótese.

De acordo com Luccena, Campo Grande, assim como alguns bairros de seu entorno, fazem parte da última fronteira de expansão da população do Rio de Janeiro. Seus Distritos Industriais instalados na década de 1970 e as grandes empresas que com eles vieram, impulsionaram o crescimento da região. A posterior demanda por habitação incentivou o mercado imobiliário a investir, fato que acabou por estimular o desenvolvimento de seu subcentro. Além disso, a infraestrutura de transporte implantada; a existência de uma rodoviária e de uma estação ferroviária na região possibilitou uma acessibilidade importante ao bairro.

Além disso, suas paisagens e riquezas naturais fazem do bairro um local com certas particularidades, nos últimos anos, bem aproveitadas e exploradas pelo setor imobiliário. A existência de espaços disponíveis para construção, também contribuiu para atração de pessoas e investimentos.

Sua distância em relação ao Centro do Rio de Janeiro acabou favorecendo e estimulando o desenvolvimento da infraestrutura de transportes voltada para a mobilidade interna da região, interligando os núcleos urbanos densamente povoados de seu entorno ao seu subcentro. A dependência de tais núcleos em relação aos serviços encontrados neste subcentro foi, aos poucos, transformando a área em uma centralidade importante na região.

“Somado a isso, a precariedade de investimentos em transporte público em direção a Área Central e seu elevado custo, facilitaram o isolamento da região e a construção de uma dinâmica comercial mais voltada para dentro, possibilitando, assim, a ampliação do mercado formal de trabalho na própria região, ou seja, nesta porção periférica da cidade. Neste sentido, o quadro, muito mais de imobilidade, apresentado pela região, produzido tanto pela dificuldade encontrada em deslocamentos mais longos, quanto pelo perfil salarial da região, tem, também, fortalecido o dinamismo econômico desse subcentro”, explica Luccena.

Já a importância de seu centro funcional é ratificada tanto pela presença de inúmeras agências bancárias quanto pela tendência que se mantém de investimentos do mercado imobiliário em salas comerciais no bairro. Também foi observada a forte presença deste setor em projetos habitacionais, modificando, desta forma, o padrão tradicional de moradia na região, pautado na autoconstrução e nos loteamentos periféricos, alterando, assim, as formas espaciais tradicionais do bairro.

Por outro lado, cabe ressaltar, a despeito do avanço da produção imobiliária voltada para a habitação da classe média na região, a forte atuação do poder público, a partir do programa habitacional “Minha casa Minha Vida”, na região, possibilitando através de subsídios e financiamentos a aquisição de moradias por parte das famílias de baixa renda.

“A valorização de certas áreas balizadas pelo capital imobiliário, em detrimento de outras, têm impossibilitado os mais pobres de acessar áreas mais valorizadas do bairro, reproduzindo, desta forma, em escala local, o mesmo modelo de segregação existente no contexto metropolitano”, afirma a pesquisadora.

Desse modo, áreas do bairro vêm se transformando em verdadeiros enclaves de bem-estar pela própria localização privilegiada que possuem junto à oferta de serviços variados e melhor acessibilidade, enquanto seu entorno se torna cada vez mais precário e carente de serviços básicos.

Cabe, também, constatar que a chegada e o crescimento da classe média na região, embora possa ter suscitado novos investimentos e melhorias no bairro, não implicou, necessariamente, em melhorias da qualidade de vida  dos estratos menos abastados, os quais continuam sendo segregados na periferia metropolitana com condições de bem-estar urbano bem inferiores as condições observadas nas áreas centrais do bairro.

“Em outras palavras, o que de fato estamos percebendo em Campo Grande é a ocorrência, ao mesmo tempo, do fortalecimento de sua centralidade, elevação do valor da terra e, consequente produção de uma seletividade ao seu acesso, sobretudo na área central, que diversifica, cada vez mais, o tipo de serviços que oferece”, explica e completa:

“Cabe observar que, para melhor compreender as transformações espaciais recentes no Bairro de Campo Grande, um olhar mais atento sobre as transformações no espaço metropolitano se faz necessário. Nesse sentido, é possível observar que os empreendimentos industriais recentes e a infraestrutura logística em implantação na RMRJ vem produzindo efeitos de dimensões relevantes em Campo Grande, podendo, assim, alterar a relação de seu centro funcional com seus municípios vizinhos e com outros bairros periféricos”.

 

Publicado em Produção acadêmica | Última modificação em 03-11-2014 17:55:46